quarta-feira, 13 de março de 2013


Acho meio, sei lá, estranho, quando algum infeliz vem pedir um dinheirinho no sinal e é ignorado. O motorista fica olhando pra frente como se ele fosse invisível. Olha pra pro cara, sô!... Não precisa sorrir. Sorriso não enche barriga. Balança a cabeça: "Tô sem trocado!" Custa alguma coisa? Não custa. E pelo menos você olhou. Ser ignorado é triste. O cara já está no buraco. Precisa empurrar mais? E mesmo se for um cachaceiro, qual o problema? VOCÊ NUNCA USOU OS SAPATOS DELE. Não sabe por que ele bebe. Guarde seus trocados, tudo bem, é dinheiro seu, dinheiro suado, mas ignorar um ser humano, agir como se ele não estivesse ali, pelo amor de Deus!...

PEQUENA HISTÓRIA DA TATUAGEM (NÃO MUITO CONFIÁVEL)

Houve uma polêmica recente sobre tatuagem. Alguém falou mal dela e  muitos de nós caímos matando. Vou relevar a bobagem. Ela saiu após um momento de extrema revolta. A família do sujeito tinha vivido um mau pedaço: assalto à família, armas, ameaças. Ele mesmo se desculpou depois.

A tatuagem vem de longe. Coisa de 50 mil anos, talvez mais. Parte final da chamada Glaciação Winsconsin. O Homem de Neandertal era fã dela. Vamos pular agora pro sec. 16. Período de muita navegação. Os marinheiros podem ter aprendido sobre tatuagem com nativos do Pacífico. Ou em várias bibocas ao mesmo tempo, tanto faz. Aí virou moda. Tinha marinheiro tatuado por toda parte. Você ganharia um aparelho de jantar se encontrasse um marinheiro sem tatuagem. Aquilo era um símbolo de destemor, espírito livre, barbárie: não mexam comigo!... Bem, a turma vinha pra terra uma vez ou outra. E em terra esbarrava com gigolôs, putas, ladrões, etc. E essa gente pirava vendo aquilo. Cara, show de bola!...(Em 1600/1700 já se falava show de bola) Faz uma pra mim!...? O marinheiro fazia em troca de grana, ou de uma boa chupada. E por uma vantagem ainda maior ensinava como fazer. O pessoal de porto era barra pesada. Vivia indo em cana por todo tipo de crime. E assim a tatuagem, mesmo inocente, foi pra cadeia. Se espalhou entre os presos como sífilis. Ficou lá um bom tempo. Depois foi saindo devagar pela mão das visitas. Todo domingo algum parente levava a técnica para fora. Os presos, quando eram soltos ou fugiam, serviam também de veículos. E então ela fez mais uma parada. E dessa vez foi bem longa. Mesmo entre os pobres havia alguma resistência. Levou muito tempo para ser aceita entre eles. Depois subiu por um elevador rangente. Mais uma vez devagar. Alguns tipos de empresa de trabalho pesado admitiam tatuagens. Fingiam que não estavam vendo. Outras empresas, mais caretas, ainda hoje resistem. O candidato a emprego tem de usar manga comprida. Ou então levar um currículo muito bom. Ela continuou sua ascensão gloriosa: classe média, média alta, alta, altíssima. Pagou alguma coisa para subir. E quem não paga? Perdeu parte de sua mística: quase nada tem hoje dos seus símbolos iniciais. Garotos legais usam; meninas com mestrado na França; advogados, vendedoras, jornalistas, enfim, gente honesta, sem mancha. E se alguns fazem coisas feias, isso não tem nada a ver com tatuagem. Deixem a tatuagem fora disso. Temos um único senão, e vem daí algum mal entendido: ela continua viva entre os criminosos, também. Chamam isso de “cultura anfíbia”. Vive em dois ou mais ambientes.

Eu gostaria de ter uma tatuagem, mas sei não, estou velho pra isso.

domingo, 3 de março de 2013

AUTO - RETRATO (Carlos Antônio Jordão)


AUTO - RETRATO

Meu dia de trabalho (se interessar a alguém): me levanto sempre às 4 da madrugada, inclusive fins de semana e feriados.(Problema nenhum. Já virou hábito). Trabalho das 5 às 7:30 em um 2º livro de contos. Daí até as 8 e pouco faço mais um cap. do "Raul Brejeiro". O restante do tempo é trabalho de agência. Gosto muito de criar, mas acho uma coisa: em varejo, não estamos criando mais, estamos publicando briefings. Isso serve pra muitos de fora também: Carrefour, Extra, Casas Bahia, etc. Nosso vocabulário operacional é de 200 palavras, e olhe lá. O do Homem de Neandertal era de 900. À noite vejo a novela das 7 e a 1ª parte do Jornal Nacional(não tenho tv fechada nem DVD). Depois disso vou ler. Um ou até dois livros por semana.
Meu jeito de ser: Gosto de todo tipo de música, inclusive sertaneja, mas nunca comprei nada. Se ouvir na rua, tudo bem. Até onde sei, não tenho preconceitos. (Acho normal o casamento entre homossexuais). A ausência total de preconceitos (ou quase, posso ter algum escondido) me permite ter uma visão de 360 graus. Vejo a roda inteira. Isso é bom para qualquer pessoa, e essencial em criação.
Meus defeitos ou carências: não gosto de desafios, sou meio invejoso, bastante egoísta, nossa, tem um monte, não lembro agora.
Minhas qualidades: não sei.
Minha visão do paraíso: uma biblioteca interminável, com um milk-shake de ovomaltine a cada 100 metros.
Conclusão: Você deve achar minha vida chatíssima. Eu acho fantástica. Amo. Detestaria se fosse diferente.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

silêncio


SILÊNCIO carlos jordao
Tenho silêncios cheios de gritos, resmungos,
Palavrões, silêncios que vem de fora,
Arrastando móveis, batendo martelo,
E depois, quando você menos espera, já foram embora.
Não quero silêncios velhos, descalços, sem chinelo.
Busco um silêncio ainda por inventar.